Guia gratuito orienta pais sobre uso de telas por crianças de até seis anos
Publicação desenvolvida por pesquisadora do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP busca apoiar famílias que têm dificuldade em estabelecer limites e monitorar o uso de telas
Um guia digital gratuito com orientações práticas sobre o uso de telas nos seis primeiros anos de vida foi lançado, em setembro, por pesquisadores da USP vinculados ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE). O livro Crescendo em um mundo digital: Um guia para o uso saudável de telas por crianças pré-escolares tem 32 páginas, linguagem acessível e design de fácil leitura. O objetivo é apoiar famílias que têm dificuldade em estabelecer limites e monitorar o uso de telas, especialmente em dispositivos móveis. O material está disponível no Portal de Livros Abertos da USP e teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
O guia foi desenvolvido por Andréia Schmidt, professora do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCLRP) de Ribeirão Preto da USP, junto à sua equipe do Laboratório de Estudos Básicos e Aplicados em Análise do Comportamento (Lebac). Apoiado em estudos conduzidos em diferentes países, inclusive pelo Lebac, e em diretrizes de organizações de saúde e pediatria de todo o mundo, o material recomenda estratégias práticas para evitar o excesso de telas.
Algumas medidas sugeridas são mais restritivas, como estabelecer limites e rotinas, reservar horários livres de telas e evitar seu uso durante as refeições e antes de dormir. O livro, porém, reconhece a sobrecarga dos pais, o contato cada vez mais precoce das crianças com dispositivos e o apelo das plataformas, que favorecem o uso.
Os autores não propõem eliminá-las, mas explicam que os mecanismos de controle das próprias plataformas digitais, embora importantes, não substituem o acompanhamento humano. “A segurança digital das crianças depende de uma parceria: a tecnologia faz a filtragem inicial, mas são os pais e professores, no dia a dia, que orientam o olhar das crianças para transformar a tela em uma ferramenta de lazer seguro e de conhecimento”, resume Rafael Julio Magrini Cunha, doutorando em Psicobiologia na FFCLRP e coautor do guia.
Outras estratégias incluem a seleção criteriosa de conteúdos adequados à idade, com ritmo moderado e sem violência ou publicidade, e a mediação ativa, em que os pais assistem aos programas e interagem com a criança. O guia propõe ainda critérios práticos e perguntas para avaliar vídeos e verificar se o conteúdo rotulado como “educativo” realmente ensina algo substancial.
O guia explica que o uso excessivo de telas pode reduzir interações sociais e físicas essenciais ao desenvolvimento infantil, prejudicando a aquisição de linguagem, habilidades cognitivas, motoras e socioemocionais, além do sono. Outro problema discutido é o conteúdo. Vídeos com violência, ritmo acelerado, publicidade velada e formatos de poucos segundos, como shorts do YouTube e TikTok, podem afetar atenção e memória, incentivar o consumo, prejudicar o controle de impulsos e dificultar a tolerância à frustração.
Segundo Ana Julia do Nascimento Silva, também doutoranda em Psicobiologia na FFCLRP e coautora do guia, a publicação nasceu da experiência de pesquisa acumulada pelo Lebac e de três dificuldades identificadas nas famílias na era digital. A primeira é conciliar a tecnologia com a rotina familiar. “Ao longo de nossas pesquisas, identificamos que equilibrar a rotina e garantir um uso saudável da tecnologia é um desafio constante para os pais”, afirma.
A segunda é encontrar orientações confiáveis. “Cuidadores se preocupam e buscam se informar, mas diante do volume de conteúdo disponível na internet, pode ficar difícil para eles selecionarem orientações e informações baseadas em ciência”, acrescenta Janine Albuquerque Nogueira, mestranda em Psicobiologia na FFCLRP e também coautora. Ana Julia observa ainda que, além de muitas famílias não terem acesso direto à produção acadêmica, muitas delas não sabem como aplicar essas informações no dia a dia. Daí a terceira dificuldade que o guia busca solucionar: transformar informação em ação.
Texto: Vanessa Ayres Pereira – bolsista de Jornalismo Científico da Fapesp e vinculada ao INCT-ECCE. Matéria publicada originalmente no Jornal da USP.
